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No dia 04 de junho o Secretário de Transportes da cidade de São Paulo, Jilmar Tatto, anunciou um ousado plano que atualiza a Meta 97 do Programa de Metas da Prefeitura: implantar 400 km de ciclovias na cidade de São Paulo, até o final da gestão Haddad.

Trata-se de uma atualização muito bem-vinda, uma vez que a Meta 97 original se ancorava no termo “vias cicláveis”, que podem significar ciclovias, ciclofaixas, ciclorrotas, calçadas compartilhadas e etc. Ou seja, qualquer tipo de infraestrutura cicloviária. Isto sem contar o erro conceitual, pois todas as vias são “cicláveis” – exceção feita às vias consideradas de “tráfego rápido”, uma situação bastante específica detalhada no glossário do Código de Trânsito Brasileiro.

A proposta prevê uma rede cicloviária ampla e integrada. Imagem: CET/Reprodução

A proposta prevê uma rede cicloviária ampla e integrada. Imagem: CET/Reprodução

Sempre há o temor pelo descumprimento da Meta. Mas antes havia o temor pelo que se consideraria meta alcançada, pois 350 km de ciclorrotas + 50 km de ciclovias poderiam significar cumprimento integral da meta.

OK, mas qual a diferença entre 400 km de ciclovias, ciclofaixas, ciclorrotas e outras “ciclo alguma coisa”? Recomendo este post do Willian Cruz sobre as características de cada infraestrutura. Mas gostaria de destacar que o grau de complexidade e custo de cada uma delas também está relacionado com o grau de conforto e segurança ao ciclista quando está pedalando por uma destas infraestruturas. Não há nada mais aprazível do que um sistema de ciclovias interligadas, que sejam funcionais e atendam à demanda e à cultura do ciclista na cidade.

No entanto, ciclovias nunca serão suficientes, pois São Paulo possui 17 mil km de ruas e avenidas. Eis que surgem outras medidas e as demais infraestruturas cicloviárias, trânsito compartilhado e medidas urgentíssimas de acalmamento de tráfego. Por esta razão, se você for um leitor motorista, que alguma vez já tenha gritado para um ciclista “ir pedalar na ciclovia”, entenda que isto NUNCA será possível na totalidade do trajeto, pois a bicicleta é um modal porta a porta e, portanto, nunca haverá ciclovias que levem o ciclista de um ponto A ao ponto B o tempo todo de forma segregada. Implantar ciclovias, por conseguinte, não isenta a cidade de garantir conforto, segurança e condições mínimas para os ciclistas trafegarem nos demais 16.600 km de vias da cidade.

Voltemos ao anúncio do Plano de 400 km de ciclovias em São Paulo. Uma das diretrizes apresentadas pelo Secretário Jilmar Tatto para a implantação desta rede foi a não remoção de faixas de rolamento do viário. Para viabilizar, portanto, serão removidas vagas de estacionamento no viário – rotativas e permanentes.

Esta medida não é novidade nenhuma, apesar do espanto de muitos. Durante as muitas vindas do ex-prefeito de Bogotá Enrique Peñalosa a São Paulo, inclusive em algumas das conversas que pude ter com ele, uma frase constantemente repetida em suas argumentações sempre me chamou a atenção: “Estacionamento na via não é um direito constitucional”.

O documento divulgado também tem uma prévia da sinalização que será adotada. Imagem: CET/Reprodução

O documento divulgado também tem uma prévia da sinalização que será adotada. Imagem: CET/Reprodução

Se o direito de ir e vir (art. 5º da Constituição Federal) é tão massacradamente vociferado por motoristas irritados com o trânsito causado por manifestações, intervenções urbanas e festas populares, o mesmo argumento não pode ser usado para estacionar os carros na via pública. A diretriz apresentada pelo Secretário é, portanto, correta. Porém insuficiente.

Não são todas as vias que possuem vagas para estacionamento. Especialmente as avenidas, em São Paulo, que possuem ou corredor de ônibus ou faixa exclusiva, onde os estacionamentos já foram corretamente removidos para dar lugar ao transporte coletivo. Como será feito nestes casos, já que a remoção de faixas de rolamento está descartada? Como garantir a implantação de infraestrutura cicloviária em avenidas, vias historicamente usurpadas para o tráfego de automóveis desde o Plano de Avenidas do Prefeito Prestes Maia?

Para vias secundárias, parece-me que o planejamento desta rede é correto. Com baixo custo de implantação de R$ 200 mil por km, conforme anunciado pelo Secretário Tatto, e com um pouco de compreensão sobre origem-destino, acessos, centralidades e pontos de interesse, a cidade de São Paulo poderá ter uma rede de 400 km de ciclovias num piscar de olhos.

Na avaliação de muitos ciclistas que estiveram presentes no lançamento deste Plano, será preciso acompanhar pari passua implantação destas infraestruturas. Seja pelos embates que suscitarão na sociedade e na imprensa, seja para indicar soluções frente a eventuais equívocos de implantação.

Será que São Paulo está preparada para colocar em prática o velho bordão cicloativista “menos carros, mais bicicletas”?Captura de Tela 2014-06-16 às 02.48.44

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